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16 de Dezembro de 2018

Intolerância não combina com democracia

Lais Araujo, Estudante de Direito
Publicado por Lais Araujo
há 3 anos

Por: Luis Joacy Barreto de Matos

Uma médica da cidade mineira de Montes Claros fez uma postagem no facebook dizendo "Vamos riscar a BAHIA do mapa!" por ter tido mais deputados federais pela Bahia contrários que favoráveis à admissibilidade do pedido de impeachment da Presidente da República, que tramita no Congresso Nacional.

Montes Claros é o município da deputada federal mineira Raquel Muniz, do Partido Social Cristão - PSC, que ao declarar seu voto pelo "sim" na votação da admissibilidade do impeachment, homenageou o seu marido, prefeito do referido município, destacando que o mesmo seria exemplo de bom gestor público, o qual foi preso nesta segunda-feira pela Polícia Federal por corrupção. Dentre outras coisas, o prefeito vinha prejudicando o funcionamento de vários hospitais da cidade para beneficiar um determinado hospital, de propriedade de sua família.

A médica em questão destila mais uma vez o ódio e a estreiteza de pensamento que têm caracterizado a categoria dos médicos brasileiros desde o advento do Programa Mais Médicos, do Governo Federal, que abriu vagas do referido Programa não preenchidas por médicos brasileiros, que tinham a preferência, para médicos de diversos países estrangeiros para trabalharem em municípios do interior, para onde médicos brasileiros não querem ir e que, portanto, careciam de médicos.

O ódio de membros da classe médica, notadamente do Sudeste e Sul do País, teve novo surto após o resultado das eleições presidenciais de 2014, quando médicos dessas regiões se manifestaram da forma mais retrógrada possível, chegando-se a afirmar, por exemplo, que os nordestinos deveriam sofrer castração química para não se reproduzirem!

Tal comportamento da categoria médica brasileira não é compatível com a democracia. Intolerância não combina com democracia, é incompatível com ela. Numa democracia é fundamental saber respeitar o pensamento e as ações alheias.

Em mais uma demonstração de visão preconceituosa, uma pessoa fez um comentário na postagem da citada médica afirmando que a expressiva votação pelo "não" dos deputados federais baianos seria consequência do fato da Bahia ser o Estado com o maior número de beneficiários do Programa Bolsa Família.

De fato, a Bahia é o Estado onde há mais beneficiários desse programa federal, pois nele havia muita gente mergulhada na extrema pobreza. Porém, deve-se registrar que Minas Gerais é o quinto maior beneficiário do programa, afinal tem uma grande região onde sempre também imperou a extrema pobreza e a exclusão, o Vale do Jequitinhonha, área inclusive abrangida pelas ações da SUDENE, além do Norte de Minas e do Vale do Mucuri. E muitas pessoas que vivem no Sudeste e no Sul (assim como no próprio Nordeste) conhecem apenas o "Brazil", não conhecem o "Brasil", como diz um consagrado samba de Aldir Blanc gravado na voz da inesquecível Elis Regina.

Independentemente do que se pense sobre as gestões pós-2002 do Governo Federal, os críticos do Programa Bolsa Família ignoram ou fingem ignorar que esse programa de renda mínima executado de forma massiva foi o responsável direto pelo fato do Brasil ter saído do mapa mundial da fome pela primeira vez na sua história, o que aconteceu no ano passado. E ainda contribuiu, por conta das duas condicionalidades do programa, para melhorar a frequência escolar e os cuidados com a saúde das crianças, mediante a exigência da correta vacinação das mesmas.

Muita gente do Sudeste e do Sul talvez não faça a mínima ideia do nível de exclusão social e pobreza que havia nas regiões Norte e Nordeste do País, historicamente negligenciadas, e da importância das políticas públicas de inclusão social para muitas pessoas que vivem nelas, razão pela qual não entendem o fato da Presidente da República atual ter tido uma votação tão expressiva nessas duas regiões.

Em qualquer país do mundo ocidental e democrático a votação recebida pelos partidos políticos corresponde ao perfil econômico de cada região ou segmento social específicos. Isso ocorre nos Estados Unidos, na Alemanha, na Espanha, na França, etc. Portanto, não há o que se estranhar no fato da maioria expressiva dos nordestinos terem votado maciçamente em candidatos identificados com tais políticas de inclusão social. Caso a maioria dos nordestinos agissem em sentido contrário, ou seja, preferindo candidatos identificados com partidos políticos em cujas administrações anteriores nunca lhes deram uma atenção minimamente razoável, é que demonstrariam falta de inteligência, afinal ninguém dá tiro no próprio pé!

Quanto ao resultado da votação dos deputados federais baianos na admissibilidade do pedido de impeachment, ele demonstra a histórica vocação altaneira da Bahia, que teve papel relevante na consolidação da independência do Brasil depois do 7 de setembro de 1822 e mesmo antes disso, pois cidades do Recôncavo Baiano, como Santo Amaro da Purificação, terra de Caetano Veloso e Maria Betânia, manifestaram sua lealdade a D. Pedro I antes mesmo que este proclamasse a independência do Brasil e baianos dessa região, sobretudo caboclos, seguiram combatendo os portugueses encastelados em Salvador, fiéis à Coroa Portuguesa, que foram finalmente derrotados na batalha de Pirajá, em 02 de julho de 1823, data magna do povo baiano.

Cumpre ressaltar, ainda, que a Bahia teve papel de destaque na manutenção da unidade nacional brasileira, pois foi leal ao governo imperial e combateu movimentos separatistas que espocaram pelo País na primeira metade do século 19 e ameaçaram a sua integridade territorial.

Se no futuro vier a ficar evidenciado que o processo de impeachment atualmente em curso realmente se tratou de um golpe institucional, travestido de remédio constitucional, como se constatou em relação ao golpe de 1964, quando o presidente da Câmara dos Deputados declarou vago o cargo de presidente da república enquanto este se encontrava no País, dando início ao processo subsequente que desembocou na ditadura militar, a Bahia será um dos três estados do Brasil, ao lado do Ceará e do Amapá, cujos representantes populares, em sua maioria, ficaram do lado correto.

Intolerncia no combina com democracia

Artigo escrito por Luis Joacy Barreto de Matos, servidor público federal e bacharel em direito.

Disponível na página Acontece na Bahia.

17 Comentários

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Sim, intolerância não combina com democracia. Evidentemente que esses comentários é uma afronta a ética, ao respeito, a moral e tudo mais. São pessoas totalmente descompromissadas com o teor da democracia na sua essência.
Mas o tema debatido neste artigo tem conotação partidária, uma vez que quem está intolerante com este governo atual é o povo brasileiro com tantas falcatruas e discursos falaciosos. O povo está cansado deste flagelo. É óbvio que uma coisa não justifica à outra, pois a ignorância regional não se deve levar em consideração, por que os mais beneficiados sempre se submeterão à aqueles que os beneficiou. Se a região sul e sudeste foi levada ao ostracismo com o governo atual, é evidente que quando estiverem com os seus animos exaltados, usarão de adjetivos pejorativos para nominar os governos. E assim vice e versa.

Por isso, que o melhor remédio é investir na educação, por quem quer ver um país diferente, deve investir nas crianças atuais para se ter um futuro de brasileiros com mais comprometimento com a ética, a moral etc. continuar lendo

Artigo excelente. Se o investimento em educação já tivesse acontecido , isto - O GOLPE - não estaria acontecendo. Mas não há possibilidade de se fazer tudo de uma vez, comida é e sempre será prioridade. Lamento tanto que o PT tenha sido cuidadoso demais porque senão já teria colocado em nossas escolas matéria obrigatória de sistema político e cidadania. Assustador mesmo é assistir esta intolerância contra o outro, triste ver a nossa sociedade desnuda, machista, homofóbica , conservadora, racista e incapaz de se importar com todos aqueles que por séculos foram escravizados de todas as formas possíveis pelos detentores dos adjetivos acima. Quanto a classe médica esta é resultado de décadas de formação de médicos oriundos das elites predatórias e os poucos que não pertenciam as elites esqueceram de onde vieram. Poderia , como médica, contar dos horrores que vi praticados por médicos que odeiam pobres, não se muda este cenário sem a inclusão e educação e isto vinha sendo feito. O grande motivo de tudo isto é uma grande massa de ignorantes , no sentido do saber, manipulados por aqueles que querem que tudo volte a ser como antes. Me lembro que quando era criança me parecia impossível ser médica e conhecer Pompéia. Este sentimento pueril era para os miseráveis a comida de hoje, parecia impossível conseguir COMER. continuar lendo

Texto muito bom, parabéns!
É uma triste realidade. continuar lendo

A indignação de quem se revolta contra aqueles que continuam apoiando o governo atual (portanto, contra o impeachment) não tem a ver, diretamente, com bolsa família.
O problema é que não se pode entender (e aceitar) quem defenda políticos e governantes corruptos e ladrões.
Além do que, é muito egoísmo e falta de visão de futuro, ser contra o impeachment apenas porque talvez lhe sejam reduzidos os assistencialismos do estado.
E também é falta de inteligência, porque esse assistencialismo é necessário, em grande parte, justamente porque governos corruptos e usurpadores se perpetuam no poder, usando exatamente o assistencialismo populista como forma de chegar lá e se manter no poder. continuar lendo

"... O problema é que não se pode entender (e aceitar) quem defenda políticos e governantes corruptos e ladrões..."
Desculpe, doutor, mas essa declaração denota intolerância.
Mas tudo bem, vou abrir-lhe uma concessão: os políticos do PT são corruptos. Ok. Os deputados que votaram a favor do impeachment são íntegros, honestos? Você está certo disso? Então por que a esmagadora maioria deles está naquela listinha que foi protegida pelo segredo de justiça? continuar lendo

Só um comentário para refletirmos? Não há razão para existir extrema pobreza no nordeste e sabemos disso, diante de tantas promessas anos após anos por todos os governos. O que ocorre é extrema exploração dessas regiões menos favorecidas exatamente como pretexto para fazer campanha política. Querem melhorar a fome e exclusão de uma região? Implementem programas de capacitação profissional, invistam em educação de qualidade, remunerem bem os professores da região e reformem as escolas que nem poderíamos chamar de escolas. levem saneamento básico e luz elétrica que são básicos !! Querer e investir num cidadão é dar à ele condições de trabalho, educação e moradia dignos. continuar lendo

Perfeito, Madleine.
Se me permite, apenas acrescento: o melhor programa de inclusão social que existe é o emprego de qualidade, bolsas apenas devem atender à urgência da fome. continuar lendo